Nem sempre o baixo desempenho escolar e comportamentos depressivos ou rebeldes têm origem em deficiências, transtornos ou outras questões psiquiátricas/psicológicas.

Há casos nos quais o baixo desempenho e problemas comportamentais são originados por sofrimento psicológico resultante de sentimentos diversos relacionados à condição de Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD).

Embora inicialmente o termo Superdotação tenha sido utilizado para definir pessoas com QI (Quociente de Inteligência) muito superior à média, em geral igual ou superior a 130, ao longo do século XX, o entendimento acadêmico educacional evoluiu para o conceito de Altas Habilidades e Superdotação, com Altas Habilidades referindo-se a pessoas dotadas de talentos específicos (habilidades acima da média) em uma ou mais áreas, desde áreas do conhecimento, como linguística, matemática, história, entre outras, até artes (música, pintura, escultura, por exemplo), liderança, criatividade e até mesmo esportes.

Desta forma, embora cada país ou sociedade ainda adote uma política específica mais voltada ao reconhecimento da Superdotação (foco em Alto QI) ou Altas Habilidades (foco em habilidades acima da média), e existam algumas vertentes teóricas, a corrente acadêmica mais aceita na atualidade entende Alta Habilidades e Superdotação (AH/SD) como uma qualidade de alguns indivíduos a qual, além do desempenho bastante superior à média em uma ou mais áreas, traz consigo características como hiperfoco e alto comprometimento com as tarefas.

E é justamente o alto comprometimento com as tarefas, ou a suposta ausência dele, que muitas vezes distorce como pais, professores e outros profissionais enxergam a criança ou adolescente com AH/SD, especialmente em temas acadêmicos/intelectuais.

Dada sua elevada capacidade de raciocínio e curiosidade intelectual, tais pessoas tendem a se entediar, se frustrar e mesmo se deprimir em ambientes escolares, levando-as à falta de interesse, baixo desempenho, baixa atenção e outros comportamentos.

Imagine o sofrimento de ver-se preso em um lugar onde você é obrigado a ouvir coisas absurdamente óbvias, por horas e mais horas, dia após dia. Professores repetindo por semanas algo tão óbvio e simples que você já entendeu nos primeiros 5 minutos, mas é obrigado a assistir repetidas explicações e exemplos, enquanto vê os demais colegas perguntando coisas que não fazem sentido, a não ser que queiram se fingir de interessados ou atrasar o andamento da aula... Um lugar onde seus pais te obrigam a passar o dia... Tempo que você poderia estar fazendo algo interessante, se divertindo colocando em prática suas habilidades ou estudando/pesquisando temas interessantes...

Para completar o cenário, tente imaginar isto sob a perspectiva de uma criança ou adolescente, que ainda por cima possui um certo grau de superexcitabilidade e dificuldades de autorregulação.

Todo o potencial inato deste jovem pode ser ocultado por sentimentos negativos aliados a uma sensação de não pertencimento, uma sensação de que ele é o problema, o diferente.

Isto sem falar no agravamento de tais sentimentos em função de bulling ou mesmo a simples constatação de que os colegas não o enxergam como um igual, seja por ignorância, seja muitas vezes por inveja.

Assim, não é incomum vermos casos em que crianças e especialmente adolescentes com AH/SD não identificado apresentam um desempenho escolar baixíssimo, além de comportamentos negativos originados por anos e anos de sofrimento e mesmo traumas intensos.

É certo que em situações assim, tanto a identificação quanto o tratamento (especialmente quando este sofrimento já se enraizou em depressão ou outras questões psicológicas) devem ser conduzidos por uma equipe multidisciplinar, incluindo, mas não se limitando a professores, pedagogos, psicopedagogos, neuropsicopedagogos, psicólogos etc.

Contudo, a psicopedagogia e a neuropsicopedagogia possuem um papel de extrema relevância ao possibilitarem a adoção de estratégias educacionais junto à família e escola que permitam que gradualmente este jovem volte a sentir-se positivamente estimulado e explore todo seu potencial acadêmico, gradualmente motivando-se nos estudos.

AH/SD não é um transtorno, muito pelo contrário, sendo, por exemplo, referido como "gifted" ("presenteado") em inglês, mas pode sim resultar em sofrimento e outros desdobramentos negativos, sendo de suma importância sua identificação o mais cedo possível, de forma a possibilitar que a pessoa vivencie todo seu potencial de forma positiva e realizadora.